Valéria Carneiro, quilombola e integrante do projeto, leva a experiência de adaptação climática no Marajó para o debate global que aconteceu no Nordeste do Brasil.
O projeto Marajó Resiliente, primeiro no Brasil a receber recursos do Fundo Verde do Clima (GCF) para adaptação climática, participou da 19ª Conferência de Adaptação Baseada em Comunidades (CBA19), realizada em Recife. O evento reuniu especialistas e lideranças do Sul Global e aprofundou debates que também estarão em pauta na COP30, marcada para acontecer em novembro deste ano em Belém, no Pará. A participação do Marajó Resiliente destacou a importância de iniciativas locais no combate à crise climática e mostrou soluções vindas das próprias comunidades tradicionais marajoaras, que mesclam saberes ancestrais com conhecimentos técnicos.

Valéria Carneiro, quilombola marajoara e coordenadora do Fundo Quilombola Mizizi Dudu, uma das vozes do Marajó Resiliente no encontro, reforçou a necessidade de reconhecer os saberes ancestrais.” Aqui no CBA eu participei de uma mesa onde eu pude falar da importância de se ter o conhecimento ancestral das comunidades. Eu acho que a gente constrói a partir disso, pra gente enquanto comunidade é muito importante que isso esteja posto, que as pessoas consigam entender, que as comunidades internacionais consigam entender a importância dos saberes tradicionais”, afirmou a liderança.
Valéria destacou o papel central das mulheres marajoaras na resposta às mudanças climáticas. “É importante reconhecer o papel que as mulheres têm em defesa do território. Acredito que elas são responsáveis pela adaptação climática no território. Elas que detêm esse conhecimento, elas que conseguem reformular o calendário. É uma coisa que eu venho falando sempre. As mulheres que plantam, elas que colhem, elas que detêm o conhecimento do calendário”, explicou. O fundo prioriza grupos femininos em formações técnicas e na gestão de negócios sustentáveis, como o processamento de açaí e óleos vegetais.
O projeto está sendo implementado em Cachoeira do Arari, Salvaterra e Soure, no Marajó, regiões que sofrem com cheias extremas, erosão costeira e alterações nos ciclos de chuva que têm afetado diretamente a produção agrícola das comunidades agroextrativistas. Para Juliana, a conferência em Recife foi estratégica para pressionar
por mudanças no acesso a financiamentos climáticos. “Há barreiras burocráticas que impedem organizações de base de captar recursos. Aqui, mostramos que é possível ter projetos robustos construídos a partir do território”, disse, referindo-se à participação de representantes de governos e entidades financiadoras no evento.
Juliana Strobel, diretora de ação climática da Fundación Avina, instituição acreditada no GCF para coordenar o projeto, enfatizou que o Marajó Resiliente nasceu de um processo de escuta ativa junto a famílias agricultoras quilombolas, ribeirinhos e extrativistas de três municípios do maior arquipélago fluviomarinho do mundo. “Não foi uma proposta pronta, ele foi construído em parceria com as comunidades locais desde o início. O conhecimento tradicional das populações sobre o território, como espécies adequadas e dinâmica das marés, foi essencial na elaboração da proposta. Isso fez com que o projeto representasse de fato o território, e não apenas a organização proponente. A implementação atual, segue próxima das comunidades por meio do Comitê Consultivo Local e de uma escuta ativa para alcançar os objetivos de adaptação climática”, explicou.
Entre os desafios para apoio a projetos climáticos está a questão do financiamento contextualizado às realidades locais e territoriais. “É importante que as comunidades entendam o que é o financiamento climático, para além do recurso financeiro. Porque eu entendo que o dinheiro é muito importante, mas ainda há um abismo entre a
linguagem dos editais e a realidade das comunidades”, criticou Valéria.
Juliana acredita que a visibilidade conquistada na CBA19 promoverá caminhos para a COP30. “A gente tem aqui a presença de representantes do Fundo Verde do Clima, do Fundo de Adaptação, da cooperação bilateral e também temos muitos que implementam projetos semelhantes de adaptação, então é uma oportunidade para
mostrar as questões que as comunidades do Marajó estão enfrentando, elas se tornam visíveis para esses atores e que aos poucos também podem inclusive mudar algumas práticas, tentar desburocratizar acessos a financiamentos. A gente traz junto com a Valéria essa experiência do Marajó Resiliente para esse fórum e com isso tentando também que no futuro mais pessoas tenham acesso a recursos de adaptação climática no Brasil e no mundo”, concluiu.
O projeto Marajó Resiliente tem o objetivo de promover a adaptação climática através de sistemas agroflorestais, fortalecendo as comunidades tradicionais marajoaras mostrando que valorizar os conhecimentos ancestrais é imprescindível na busca por justiça climática.

