De espaços paralelos à Blue Zone, o projeto Marajó Resiliente ecoou as vozes dos territórios nas agendas da COP30
BELÉM (PA) — Na primeira Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas realizada na Amazônia, o Projeto Marajó Resiliente foi uma presença marcante, plural e inspiradora. Em meio a debates sobre financiamento climático, adaptação e justiça socioambiental, a delegação formada por agricultoras e agricultores familiares do território, lideranças comunitárias e aliados do projeto mostrou ao mundo que as soluções climáticas já estão em prática nos territórios amazônicos, e que o Marajó é um desses epicentros de transformação.
Durante as duas semanas de conferência, o Marajó Resiliente circulou entre a Green Zone, a Blue Zone e espaços paralelos espalhados por Belém, levando uma mensagem como base: As soluções para a crise do clima são lideradas e fomentadas por quem vive nos territórios e se fortalece com financiamento direto.
Para Ana Carla Gonçalves, liderança quilombola de Salvaterra e multiplicadora do projeto, estar nesses momentos de debate é fundamental: “Hoje estamos aqui debatendo mudanças climáticas e políticas públicas com parceiros, e esse momento é muito oportuno para nós. O projeto trouxe essa possibilidade de participar de rodas de conversa e discutir nossas dores, nossas lutas e nossas adaptações. Podemos dizer que estamos conseguindo sim nos adaptar, através do Marajó Resiliente.”
Um dos destaques da programação foi o encontro “Os impactos da crise climática no Marajó”, promovido pela Fundación Avina, que reuniu agricultores e agricultoras, representantes da Malungu, do Observatório do Marajó e gestores municipais do arquipélago. O encontro evidenciou um novo avanço do Projeto Marajó Resiliente, dedicado a apoiar processos de adaptação climática nos municípios marajoaras, fortalecendo a participação social e a capacidade institucional das prefeituras. O momento foi encerrado com a assinatura simbólica de um Acordo de Cooperação Técnica, formalizando o compromisso conjunto para a elaboração de três Planos Municipais de Adaptação Climática no Marajó.
“Eu acredito que o acordo de cooperação técnica vai estreitar os laços entre as comunidades e os governantes de todos os municípios. Vai trazer benefícios para todas as comunidades envolvidas do projeto Marajó Resiliente e isso vai fazer com que o acesso às políticas públicas seja facilitado para essas pessoas.“ Conta Dayse Soares, agricultora de Cachoeira do Arari e multiplicadora do projeto.
Pontuando a importância da presença dos multiplicadores agroflorestais, agricultores, agricultoras e lideranças que implementam e replicam práticas de adaptação no Marajó, reforçou a centralidade da aprendizagem comunitária e do conhecimento tradicional como pilares das soluções de adaptação. Foi um momento
Entre os participantes dessa mobilização se destaca a força da juventude e o diálogo intergeracional que se fez presente com Erivelton Nascimento Chaves, jovem de Soure e integrante da Rede Cuíra, articulação de juventudes dos manguezais amazônicos. Ele celebrou o espaço construído pelo painel: “Foi uma honra representar a juventude do Marajó e dialogar com os multiplicadores, com as mulheres e com todos que vivem as problemáticas e potencialidades do arquipélago. Falar sobre o Marajó com quem é do Marajó é muito potente.”
Mais do que presença institucional, o que marcou a participação do Marajó Resiliente na COP30 foram as pessoas. Cada agricultora, agricultor, quilombola e jovem que compôs a delegação levou não apenas sua experiência, mas também a materialidade de soluções que já estão sendo aplicadas no território: SAFs que devolvem vida ao solo, mutirões que reativam práticas ancestrais de cooperação, técnicas simples que ajudam a enfrentar o calor extremo e garantir produção mesmo em períodos de seca.
As famílias que vivem e sentem diariamente os efeitos da crise climática mostraram que adaptação não é um conceito abstrato, é uma ação cotidiana, construída com trabalho, cuidado e pertencimento ao território. Foi essa força humana, coletiva e profundamente enraizada que fez do Marajó um dos exemplos de soluções climáticas lideradas localmente, apresentados nos espaços da conferência seja em espaços paralelos como na green zone ou blue zone.
A partir desse diálogo, emergiu uma mensagem comum: a resiliência climática marajoara nasce da união entre tradição, inovação e juventude, e só se fortalece quando o território fala por si com autonomia, com protagonismo e com o direito de participar da construção das políticas para o futuro da Amazônia.




