Construído com as comunidades e organizações parceiras, o plano reúne prioridades e propostas dos territórios quilombolas, reforçando protagonismo e resiliência climática.
O Projeto Marajó Resiliente realizou neste sábado (13), em Salvaterra, a 4ª Sala de Situação Quilombola, encontro que se consolidou como um marco estratégico do projeto. A atividade teve como foco a devolutiva e a consolidação dos resultados
construídos coletivamente ao longo das oficinas de cartografia social e das edições anteriores desta Sala de Situação.
Durante o encontro, foi apresentada a primeira estrutura do Plano Quilombola, documento inédito, resultado da consultoria permanente da Apó Socioambiental junto aos territórios, que expressa de forma participativa as prioridades, preocupações e propostas das comunidades. Construído junto a quilombolas e organizações parceiras através das edições anteriores da Sala de Situação Quilombola e de oficinas colaborativas, o plano tem potencial para se tornar um dos principais instrumentos de governança do projeto Marajó Resiliente, orientando ações, monitoramento e processos de tomada de decisão ao longo da
implementação do projeto.
“A 4ª Sala de Situação Quilombola é um momento simbólico, pois apresenta a primeira versão do Plano Quilombola, um guia construído coletivamente que reúne princípios, diretrizes e ações para orientar o projeto nos territórios. Esse plano é
resultado direto das contribuições das comunidades, a partir de oficinas, consultas e mapeamentos sociais, e contempla desde o desenvolvimento de sistemas agroflorestais até a governança climática local e o acesso a mercados. É, portanto,
uma devolutiva importante e um passo essencial para a continuidade da elaboração conjunta desse instrumento de governança”, destacou Sabrina Mesquita, Coordenadora de Projetos da Apó Socioambiental.
O Plano Quilombola do Projeto Marajó Resiliente foi construído a partir de um diagnóstico profundo da realidade dos territórios, respeitando as especificidades culturais, sociais e ambientais das comunidades. Seus princípios orientadores têm
como objetivo garantir que todas as ações do projeto estejam alinhadas aos direitos e ao bem-estar das populações quilombolas, promovendo justiça climática e fortalecimento comunitário. Também estão previstos o respeito às formas de
organização social e política, a valorização dos saberes ancestrais e tradicionais e a promoção da resiliência climática diante dos impactos ambientais.
As atividades realizadas pelo projeto permitiram aprofundar o diagnóstico dos impactos das mudanças climáticas sobre as comunidades quilombolas da região. O levantamento evidencia como alterações no regime de chuvas, aumento das
temperaturas, secas prolongadas e eventos extremos têm afetado diretamente a produção agrícola, a segurança alimentar e a biodiversidade local.
O quadro diagnóstico das mudanças do clima, evidencia como as comunidades quilombolas do Marajó estão na linha de frente dos efeitos das mudanças climáticas. O avanço da seca, a perda de espécies frutíferas e pesqueiras, a devastação por queimadas e a alteração dos ciclos de chuva não só afetam os meios de vida, mas também comprometem práticas culturais e modos de vida tradicionais. Esse diagnóstico reforça a urgência de implementar medidas de adaptação e resiliência que considerem os saberes locais e as necessidades específicas desses territórios.
Outro eixo fundamental é o fortalecimento da participação das mulheres quilombolas, assegurando que suas vozes e perspectivas estejam presentes em todas as etapas do projeto. O plano também integra estratégias de adaptação climática com a promoção da saúde e da segurança hídrica e nutricional, além de incentivar processos educativos sobre mudanças climáticas, manejo sustentável de recursos naturais e práticas resilientes para a região do Marajó.
E uma das organizações que acompanha a implementação desse componente diretamente é o Instituto Conexões Sustentáveis (CONEXSUS), Danielle conta que: “Estamos presentes na Sala de Situação Quilombola para dialogar sobre o componente a ser implementado pela CONEXSUS. Este componente tem como objetivo atuar junto a associações e cooperativas lideradas por mulheres em comunidades quilombolas. Nesse contexto, o projeto busca fortalecer essas
organizações, promovendo maior participação e representatividade quilombola nas ações desenvolvidas.”
A presença quilombola no Projeto Marajó Resiliente é expressiva e estratégica. Um dos destaques é o papel dos multiplicadores quilombolas, lideranças locais que atuam como mobilizadores em suas comunidades. São eles que disseminam informações, garantem a compreensão das etapas do projeto e fortalecem a rede de referência comunitária. Dos 30 multiplicadores selecionados pelo projeto, 14 são quilombolas, representando territórios como Gurupá, Siricari, Vila União/Campinas, Pau Furado, São Benedito da Ponta, Santa Luzia, Bacabal, Boca da Mata, Boa
Vista, Salvar, Caldeirão, Bairro Alto e Pingo d’Água.
Além disso, o número de beneficiários quilombolas inscritos evidencia a adesão das famílias ao projeto. Cada comunidade, dentro de suas possibilidades e limitações, reafirma o compromisso com a construção de alternativas para adaptação climática, geração de renda e segurança alimentar. Esse engajamento mostra a confiança das comunidades no Marajó Resiliente e a expectativa por resultados duradouros.
Para Silvania da Silva Figueiredo, multiplicadora do projeto Marajó Resiliente, “Esperamos muito resultado da Sala de Situação Quilombola e que venha ser algo positivo para nossa comunidade que muitas vezes necessita de melhorias.
Principalmente na agricultura familiar onde não temos esse amparo.”
A 4ª Sala de Situação Quilombola simboliza um passo decisivo na trajetória do Projeto Marajó Resiliente, ao transformar meses de escuta e mobilização em um documento estruturante para os territórios. Mais do que um espaço de devolutiva, o
encontro reafirma a centralidade das comunidades quilombolas na construção de soluções adaptativas, fortalecendo sua voz nos processos de governança climática. O Plano Quilombola, apresentado pela primeira vez, nasce como um instrumento
coletivo de luta e planejamento, capaz de orientar ações concretas e consolidar o protagonismo das comunidades diante dos desafios impostos pela crise climática.

